Devíamos deixar de escrever sobre o passado e focar-nos em escrever sobre o futuro. A leitura e a escrita sobre o passado permitem-nos o acesso à aprendizagem e a valores essenciais à coabitação e à vida, mas vira-nos as costas à evolução e ao futuro. Por outro lado, se escrevermos sobre o futuro, o futuro da inteligência por exemplo, talvez consigamos abrir a nossa mente a processos mais criativos desenvolvendo novas soluções e até resolvendo alguns problemas que a evolução desenfreada e desregrada tem criado no mundo.

Hoje fala-se muito em sistemas de Inteligência Artificial, vulgo AI e de que estes sistemas serão os futuros geradores de desemprego.

O marketing das empresas e das pessoas diz-nos hoje que quase todas as tecnologias incluem este acrónimo (AI) ou que se baseiam nele para mostrar quão diferente e fantásticas são.

Com a maior automatização das “coisas” está a começar a criar-se um “fantasma” em redor da automatização da tecnologia (não usei o termo AI mas sim automatização, porque 98% do que existe é disso que se trata, automatização) vindo esta a ser responsável por um elevado número de desempregados, afirmação com a qual não discordo totalmente.

Para o bem e para o mal, a tecnologia faz parte do nosso dia-a-dia, originou alterações e comportamentos sociais, alguns dos quais bastante mais rápido (daí os choque) do que outros anteriores, e estas alterações rápidas nem sempre permitem (a todos) que o ser humano se adapte quase instantaneamente a essa mudança, muitos por desinteresse ou por falta de capacidade cognitiva, outros porque consideram a mudança um desconforto e outros ainda uma competição e tudo isto pode gerar medos e é exactamente esses medos que geram os “fantasmas da evolução e desemprego”.

Creio que em 1950 Alan Turing foi o primeiro “evolucionista com uma visão tecnológica” prevendo que viríamos ter computadores com uma capacidade de memória elevadíssima, Não se enganou!

Depois disso outro “evolucionista” fez uma observação que veio a chamar-se “lei de Moore” prevendo que em ciclos de 18 meses a capacidade de processamento dos processadores aumentaria em 100% com custos cada vez menores. Hoje não se sabe se foi a lei de Moore ou se foi a industria que levando esta à letra fez evoluir a “integração à escala” a um nível tal que, não só fez disto uma realidade, como a mesma está em vias de ser ultrapassada.

E isto gerou algum “fantasma” ao nível do desemprego? Não! Criou inúmeras oportunidades que ainda hoje estamos a aproveitar no nosso dia a dia e que, de tão banalizas estão, que já não as associamos à evolução.

Voltando à AI, não esqueçamos que o que se diz nem sempre corresponde à realidade e porque o “marketing” associa a AI aos novos desenvolvimentos, isso não significa que os sistemas já existentes sejam de facto inteligentes ou o venham a ser amanhã, já amanhã sublinhe-se!

A grande maioria dos sistemas existentes no mercado, aqueles que executam de forma automática operações em função de valores existentes, pré-determinados ou (mais sofisticados), capturados no momento por múltiplos sensores, são sistemas que executam de forma metódica operações quase sempre repetitivas.

Alguns, já mais sofisticados (machine learning) funcionam com base em algoritmos de aprendizagem que lhes permitem tomar decisões bem complexas, recorrendo a estruturas organizadas de dados com reconhecimento de padrões, e tomando as tais decisões ou seja, executando operações para as quais estão programados, o que não deixa de ser uma forma de inteligência mas ainda muito distante da AI, apesar de estes modelos poderem vir a ser uma das bases da AI. Mas … não se preocupem aqueles que estão a criar os tais “fantasmas” pois esta pretensa inteligência ainda precisa muito da “nossa”.

O conhecimento é o futuro, é com base no conhecimento e na aprendizagem que se pode erradicar a pobreza e o desemprego no mundo. O conhecimento gera curiosidade e a curiosidade e a aprendizagem, devidamente reguladas, podem gerar conforto e prazer.

E é aqui que entram aqueles que nós elegemos para nos gerirem e que se deviam constituir em reguladores criando e cumprindo regras de cidadania e regras de desenvolvimento organizado, que iriam permitir às empresas que desenvolvem essas novas tecnologias que, como resultando dos seus novos desenvolvimentos deviam também ter a responsabilidade de sugerir aos reguladores novas formas de trabalho fruto dos seus novos desenvolvimentos.

Assim e até atingirmos essa tão famigerada autonomia corporizada pelos sistemas de AI, devia ser responsabilidade dos reguladores ouvirem e das empresas proporem novas formas de trabalho complementar a tudo o que é novo – “Machine Learning”, “Embedded Intelligence” “Artificial Intelligence” etc. criarem também condições para o aparecimento de novos empregos, como uma resultante das suas tecnologias, reaproveitando as pessoas em novas funções e novas formas de continuar a usar a “nossa” inteligência em prol, ia a dizer das empresas, mas fica melhor da humanidade, em vez de andarmos a criar “fantasmas”.

Senão fizermos isso, até podemos correr o risco dessa AI vir a arrancar “sozinha” e ela própria criar um mundo onde nós, pela ignorância, estremos completamente fora, com todos os riscos inerentes a esse autodesenvolvimento e isto não é nenhum “fantasma” mas sim uma realidade que já vivemos hoje em dia, se bem que num contexto diferente.

Infelizmente não podemos esperar pelos governos, que todos nós gostaríamos fossem apenas meros reguladores e transportadores da nossa vontade, o que não existe, mas sim avançarmos com propostas e criação de novos postos de trabalho em função daquilo que cada um de nós produz e que sabe ser útil ou vir a ser útil para a sociedade.

Sempre desenvolvi tecnologias, mais ou menos sofisticadas o que faço ainda hoje pois a empresa onde estou, a SST desenvolve tecnologias que incluem “embedded intelligence”, tecnologias que por si só são capazes de tomar decisões ao nível da gestão da melhor iluminação de um local, do ligar ou desligar equipamentos nesse local em função da falta que fazem, da forma como se deve usar a água, basicamente garantindo o conforto e a segurança das pessoas e do local onde se encontram. Tudo isto funciona de forma automatizada em função de uma série de variáveis relativas ao local e ao mundo em geral, obtidas naquilo que se chama de “tempo real” ou seja, instantaneamente, que está a acontecer, tudo sem paragens ao longo das 24 horas do dia e sem intervenção humana, salvo a de supervisão e esta curiosamente, apenas solicitada quando o sistema já esgotou as possibilidades de tomada de decisão ou seja, quando já não tem mais hipóteses e necessita do seu supervisor.

Um sistema destes toma a decisão de fazer o que a sua programação assente numa “embedded Intelligence” lhe fazer e fá-lo sempre procurando fazer sempre melhor mas quando as possibilidades se esgotam, “chama” o humano.

Toda esta tecnologia gera uma quantidade de informação capaz de, dependendo da frequência com que é programado o seu envio, gerar vários terabytes por mês.

Se estes resultados forem analisados atempadamente por um técnico com conhecimentos de matemática, de estatística e com alguma educação ambiental, teremos um ecoanalista ou um ecomatemático ou um ecoengenheiro, e o que faria este “eco”? Analisaria os dados desta empresa com alguns objectivos claros:

  • Manteria o sistema de “embedded Intelligence” optimizado tendo presente o conforto dos utentes, optimizaria os tempos de funcionamento dos equipamentos e os consumos energéticos e tentaria perceber os sinais anómalos do “Comfort & Safety” dados pelo sistema. (feed-back).
  • Depois e com base numa tabela de usabilidade de locais e consumos associados disponibilizada, por exemplo, pelo INE (isto é ficção cientifica) classificaria a sua empresa e, com recurso a uma estrutura organizada de dados, desta mesma instituição, procuraria outras entidades adjacentes à sua, eventualmente com caraterísticas e comportamentos idênticos e trocaria o conhecimento obtido na sua experiencia diária cm estes, para que os seus comportamentos fossem também eles optimizados e o mais ecológico possível.
  • E o INE por seu lado, entidade com dados não apenas estatísticos, mas reais e uteis, senso parte de um “Governo regulador” passaria a ter ao seu dispor informação sobre os comportamentos das várias entidades produtivas dos vários sectores, concelhos, distritos, etc. usando estas informações para alimentar um rede neuronal cujos modelos processariam e trocariam estas informações e divulgando informações verdadeiramente úteis para as empresas e as pessoas.
  • Depois e com base nesses comportamentos e em análises preditivas poderia divulgar essas informações comportamentais, por exemplo, às Utilities e estas, poderiam prever as necessárias necessidades energéticas para daqui a seis meses gerando ou adquirindo essas energias em condições mais vantajosas e vendendo às fontes de “informação” a energia a valores que as tornariam mais competitivas, obviamente se o governo fosse um regulador.

E com apenas uma tecnologia conseguiríamos gerar novos tipos de emprego. Agora imaginem um modelo deste tipo elevado a 10 ou a 100?

Ou seja, uma tecnologia, per si, que automatiza uma série de métodos relacionados com o conforto dos recursos humanos, com a utilização dos equipamentos das unidades produtivas e a segurança pode gerar “n” novos tipos de trabalho que por sua vez, cada um destes pode originar outros retirando-se o “fantasma do desemprego” escondido atrás da evolução tecnológica e da ignorância.

Para mim o avanço tecnológico é e será sempre um gerador de novos empregos e quem não vê isso é porque ou tem medo da (sua) evolução ou está muito bem instalado na sua zona de conforto, mas se assim é, por favor não criem “fantasmas” para assustar as populações.

Não esqueçam o passado, onde estão as nossas origens, mas estudem o futuro.

Carlos Rosário

Jan.2019 (carlos.rosario@sstech.pt)